_ Vou dormir na
casa da Cordélia. _ Elis dizia sentada à mesa entre uma garfada e outra.
_ Você não
vai,não. _ respondia Fernando, com a mesma indiferença da informação de
Elis.
_ Elas podem
dormir aqui, então?
_ Você está de
castigo. É lógico que elas não podem. _ Fernando pousava o copo de suco à sua
frente e se virava para responder à Elis.
_ E isso vai
durar quanto tempo?
_ O tempo
necessário pra você cair em si e perceber a gravidade do que fez. E pensar em
nunca mais fazer.
_ Isso quer dizer
que eu nunca mais vou sair do castigo? _ Elis comia aparentando tranquilidade
mas o que queria mesmo era provocar todos com sua ironia. Bebericou o suco e
concluiu: _ Ou vocês acham que eu vou aguentar viver em cárcere privado por
muito tempo?
_ Quando você
atingir a maioridade, Elis, você pode começar a decidir por você. _ Fernando
respondia, tentando conter sua irritação.
Elis virou-se
para Dora, sua mãe, que tentava ignorar toda aquela discussão, rezando para
que não se tornasse algo maior que já
aparentava ser. Continuou encarando sua mãe, calada. Por fim, suspirou: _ Você
não diz nada?
_ Dizer o que,
Elis? _ Dora respondia cansada, já sabendo o que vinha pela frente. _ Será que
não podemos jantar em paz?
_ Você quer
jantar em paz? Então bom apetite, eu perdi a fome! _ e se levantou.
_ Volta já pro
seu lugar. _ Fernando disse duramente.
_ Senão o que?! _
Elis empunhava o queixo em desafio.
_ Seu castigo vai
ser ainda maior.
_ Você pensa que
tá falando com quem?
_ Elis, modera o
seu tom… _ sua mãe falava num fio de voz.
_ Não, mãe! Não
modero, não! _ o tom alto já era beirava os gritos.
_ Volta pro seu
lugar e fala direito com a sua mãe!
_ Não. Pára de me
dar ordens! Você não é meu pai! _ dito isso, subiu as escadas correndo e bateu
a porta do quarto.
Elis puxou uma
mala debaixo da cama e foi colocando todas as suas roupas dentro. Fugiria outra
vez e ninguém a encontraria, iria para bem longe. Abriu a cômoda e foi jogando
tudo que encontrava pela frente. Entre uma pegada meio brusca e outra, quebrava
algumas coisas pelo caminho. Chutou o pouf, puxou a gaveta do criado mudo que
caiu no chão espalhando documentos, papéis, cartas e algumas fotos.
Viu uma foto sua
com seu pai; era uma foto antiga, ela devia ter uns nove anos na foto. Ao lado,
uma outra fotografia, mas sua com Fernando. Também deveria ter uns nove anos
quanto a fotografia foi tirada. Elis se ajoelhou ao lado da cama, pegou ambas
as fotos. Suspirou. E uma lágrima fugiu de seus olhos. Sentia falta de seu pai.
Mas afinal, quem era realmente seu pai? Olhou-se no espelho, ainda sentada no
chão. Olhou para a primeira fotografia. Ainda conservava alguns traços de seu pai: tinham o mesmo nariz
pontudo e pequeno, o mesmo queixo quebrado.
Embora seus olhos fossem castanhos e a pele mulata como o de sua mãe, o
formato amendoado era igual ao de seu pai. Seus cachos acima do ombro eram
pretos, como os de seu pai, também.
Agora olhava a
sua foto com Fernando na outra mão; definitivamente não possuia nada de Fernando.
Embora fosse biologicamente impossivel possuir algo. Ele com fios grisalhos
tomando parte da cabeleira loira. Olhos bem azuis e sorriso bem claro e largo.
Estavam felizes naquela fotografia.
Tinha sido um dia feliz. Elis não se lembrava mas sabia que tinha sido um
dos melhores daquela época. Se por um
lado, fisicamente não herdara nada de Fernando, o mesmo não podia se dizer da personalidade e gostos:
ambos eram fascinados por teatro, cinema,
dança e tudo que envolvesse cultura. Adoravam assitir todos os seriados
de todos os canais, torciam pelo mesmo
time, dormiam de meias e tinham aversão à E.Ts. Ele comparecia em todas as suas apresentações de teatro, ballet ,
canto e o que houvesse para filmar e fotografar
Elis. Sempre iam em todas as maratonas de curtas da cidade uma vez por
mês, iam juntos ao estádio e ele sempre
assinara seu boletim e estivera nas reuniões de pais. E não poderia esquecer, tambem, quem fora buscá-la na
delegacia.
Se olhou no
espelho, questionando-se: quem era mais pai? Aquele que a gerou ou aquele que a
criou?
Nenhum comentário:
Postar um comentário