Capítulo 4: Pai é…

_ Vou dormir na casa da Cordélia. _ Elis dizia sentada à mesa entre uma garfada e outra. 
_ Você não vai,não. _ respondia Fernando, com a mesma indiferença da informação de Elis. 
_ Elas podem dormir aqui, então? 
_ Você está de castigo. É lógico que elas não podem. _ Fernando pousava o copo de suco à sua frente e se virava para responder à Elis. 
_ E isso vai durar quanto tempo? 
_ O tempo necessário pra você cair em si e perceber a gravidade do que fez. E pensar em nunca mais fazer. 
_ Isso quer dizer que eu nunca mais vou sair do castigo? _ Elis comia aparentando tranquilidade mas o que queria mesmo era provocar todos com sua ironia. Bebericou o suco e concluiu: _ Ou vocês acham que eu vou aguentar viver em cárcere privado por muito tempo? 
_ Quando você atingir a maioridade, Elis, você pode começar a decidir por você. _ Fernando respondia, tentando conter sua irritação. 
Elis virou-se para Dora, sua mãe, que tentava ignorar toda aquela discussão, rezando para que  não se tornasse algo maior que já aparentava ser. Continuou encarando sua mãe, calada. Por fim, suspirou: _ Você não diz nada? 
_ Dizer o que, Elis? _ Dora respondia cansada, já sabendo o que vinha pela frente. _ Será que não podemos jantar em paz? 
_ Você quer jantar em paz? Então bom apetite, eu perdi a fome! _ e se levantou. 
_ Volta já pro seu lugar. _ Fernando disse duramente. 
_ Senão o que?! _ Elis empunhava o queixo em desafio. 
_ Seu castigo vai ser ainda maior. 
_ Você pensa que tá falando com quem? 
_ Elis, modera o seu tom… _ sua mãe falava num fio de voz. 
_ Não, mãe! Não modero, não! _ o tom alto já era beirava os gritos. 
_ Volta pro seu lugar e fala direito com a sua mãe! 
_ Não. Pára de me dar ordens! Você não é meu pai! _ dito isso, subiu as escadas correndo e bateu a porta do quarto.
Elis puxou uma mala debaixo da cama e foi colocando todas as suas roupas dentro. Fugiria outra vez e ninguém a encontraria, iria para bem longe. Abriu a cômoda e foi jogando tudo que encontrava pela frente. Entre uma pegada meio brusca e outra, quebrava algumas coisas pelo caminho. Chutou o pouf, puxou a gaveta do criado mudo que caiu no chão espalhando documentos, papéis, cartas e algumas fotos. 
Viu uma foto sua com seu pai; era uma foto antiga, ela devia ter uns nove anos na foto. Ao lado, uma outra fotografia, mas sua com Fernando. Também deveria ter uns nove anos quanto a fotografia foi tirada. Elis se ajoelhou ao lado da cama, pegou ambas as fotos. Suspirou. E uma lágrima fugiu de seus olhos. Sentia falta de seu pai. Mas afinal, quem era realmente seu pai? Olhou-se no espelho, ainda sentada no chão. Olhou para a primeira fotografia. Ainda conservava alguns  traços de seu pai: tinham o mesmo nariz pontudo e pequeno, o mesmo queixo quebrado.  Embora seus olhos fossem castanhos e a pele mulata como o de sua mãe, o formato amendoado era igual ao de seu pai. Seus cachos acima do ombro eram pretos, como os de seu pai, também. 
Agora olhava a sua foto com Fernando na outra mão; definitivamente não possuia nada de Fernando. Embora fosse biologicamente impossivel possuir algo. Ele com fios grisalhos tomando parte da cabeleira loira. Olhos bem azuis e sorriso bem claro e largo. Estavam felizes naquela  fotografia. Tinha sido um dia feliz. Elis não se lembrava mas sabia que tinha sido um dos  melhores daquela época. Se por um lado, fisicamente não herdara nada de Fernando, o mesmo  não podia se dizer da personalidade e gostos: ambos eram fascinados por teatro, cinema,  dança e tudo que envolvesse cultura. Adoravam assitir todos os seriados de todos os canais,  torciam pelo mesmo time, dormiam de meias e tinham aversão à E.Ts. Ele comparecia em todas  as suas apresentações de teatro, ballet , canto e o que houvesse para filmar e fotografar  Elis. Sempre iam em todas as maratonas de curtas da cidade uma vez por mês, iam juntos  ao estádio e ele sempre assinara seu boletim e estivera nas reuniões de pais. E não poderia  esquecer, tambem, quem fora buscá-la na delegacia. 

Se olhou no espelho, questionando-se: quem era mais pai? Aquele que a gerou ou aquele que a criou? 

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