Capítulo 2: Abduzidas? (continuação)

O grito foi abafado pela imagem de um policial baixinho, que se aproximava com uma lanterna numa mão e um rádio na outra: 
         _ São três meninas. Sim… Entendido. _ o rádio fez mais um barulho, caiu um silêncio entre os quatro. As três amigas estavam paralisadas, as expressões estáticas. Elis foi a primeira a se manifestar devido uma fisgada no pé dolorido. 
         _ Ai! 
         _ Você se machucou? _ o policial antecipou-se em ampará-la. _ O que três crianças estão fazendo a essa hora fora de casa no meio do nada?
         As três se olharam e Elis completou: _ Eu preferia o E.T. 
         O policial as conduziu para o carro onde outro estava no banco de carona mexendo no painel de controle, assim que entraram pegaram o caminho de volta.
         Quando a viatura parou na porta na delegacia, as três amigas se olharam e espiaram pela janela. Enxergaram seus pais perto da recepção com as caras cansadas mas já tranqüilizadas; o policial já havia passado um rádio avisando que encontrara as três meninas “desaparecidas”. 
         _ Emancipação ou extrema unção… emancipação ou extrema unção… _ Elis falava erguendo as duas mãos como uma balança pesando as opções. 
         _ Será que a gente pode passar direto pro limbo? _ Cordélia não tirava os olhos da delegacia. 
         _ Limbo é pros inocentes; se a gente não descer direto, torçam pra pararmos no purgatório! _ Luiza seguia os olhos de Cordélia, tensa e com a respiração entrecortada. 
         Quando adentraram a delegacia, todos se olharam em silêncio. Até mesmo um policial que atendia a uma chamada telefônica, emudeceu. Mas a voz do outro lado da linha o trouxe de  volta à realidade: _ Ah, sim! Claro, claro… estou aqui, pode continuar. 
         _ Vocês tem algo a dizer? _ Regina, a mãe de Elis cortou o silêncio. Os olhos de todos ainda estavam voltados para as três desde sua entrada. 
         _ Posso alugar uma cela, aqui? _ Elis, que agora já andava sem dificuldade, respondia tentando sorrir mas por dentro estava tão tensa quanto as amigas, de quem segurava as mãos. 
         _ Vamos pra casa, agora! Não acredito que saí do meio de um plantão pra vir te buscar numa  delegacia! _ Marcos, o pai de Cordélia, a puxava pelo braço enquanto passava por elas, saindo da delegacia. Cordélia tentou acenar para as amigas, que fizeram um sinal com as mãos de “eu te ligo!”. 
         Os pais de Luiza pararam em frente a ela, sua mãe balançou a cabeça  negativamente e também seguiram para fora; Luiza apertou a mão de Elis e soltou, seguindo os pais. 
         _ Seu carro teve que vir rebocado por causa do pneu furado, senhor. Preciso que assine aqui e aqui pra liberação. _ o policial entregava uma prancheta com uns papéis para Fernando, que  assinava sem tirar os olhos de Elis. Ah, com certeza ficaria de castigo pela vida inteira. Seria o mínimo por aquela travessura. Elis tentava imaginar o que se passava pela cabeça de seu padrasto mas sabia que não adivinharia algo de tão ruim que, com certeza, estava por vir. Bom, essa era a conseqüência de ser Elis!
  

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