O grito foi
abafado pela imagem de um policial baixinho, que se aproximava com uma lanterna
numa mão e um rádio na outra:
_ São três meninas. Sim… Entendido. _ o
rádio fez mais um barulho, caiu um silêncio entre os quatro. As três amigas
estavam paralisadas, as expressões estáticas. Elis foi a primeira a se manifestar
devido uma fisgada no pé dolorido.
_ Ai!
_ Você se machucou? _ o policial
antecipou-se em ampará-la. _ O que três crianças estão fazendo a essa hora fora
de casa no meio do nada?
As três se olharam e Elis completou: _
Eu preferia o E.T.
O policial as conduziu para o carro
onde outro estava no banco de carona mexendo no painel de controle, assim que
entraram pegaram o caminho de volta.
Quando a viatura parou na porta na
delegacia, as três amigas se olharam e espiaram pela janela. Enxergaram seus
pais perto da recepção com as caras cansadas mas já tranqüilizadas; o policial
já havia passado um rádio avisando que encontrara as três meninas
“desaparecidas”.
_ Emancipação ou extrema unção…
emancipação ou extrema unção… _ Elis falava erguendo as duas mãos como uma
balança pesando as opções.
_ Será que a gente pode passar direto
pro limbo? _ Cordélia não tirava os olhos da delegacia.
_ Limbo é pros inocentes; se a gente
não descer direto, torçam pra pararmos no purgatório! _ Luiza seguia os olhos
de Cordélia, tensa e com a respiração entrecortada.
Quando adentraram a delegacia, todos se
olharam em silêncio. Até mesmo um policial que atendia a uma chamada telefônica,
emudeceu. Mas a voz do outro lado da linha o trouxe de volta à realidade: _ Ah, sim! Claro, claro…
estou aqui, pode continuar.
_ Vocês tem algo a dizer? _ Regina, a
mãe de Elis cortou o silêncio. Os olhos de todos ainda estavam voltados para as
três desde sua entrada.
_ Posso alugar uma cela, aqui? _ Elis,
que agora já andava sem dificuldade, respondia tentando sorrir mas por dentro
estava tão tensa quanto as amigas, de quem segurava as mãos.
_ Vamos pra casa, agora! Não acredito
que saí do meio de um plantão pra vir te buscar numa delegacia! _ Marcos, o pai de Cordélia, a
puxava pelo braço enquanto passava por elas, saindo da delegacia. Cordélia
tentou acenar para as amigas, que fizeram um sinal com as mãos de “eu te
ligo!”.
Os pais de Luiza pararam em frente a
ela, sua mãe balançou a cabeça negativamente
e também seguiram para fora; Luiza apertou a mão de Elis e soltou, seguindo os
pais.
_ Seu carro teve que vir rebocado por
causa do pneu furado, senhor. Preciso que assine aqui e aqui pra liberação. _ o
policial entregava uma prancheta com uns papéis para Fernando, que assinava sem tirar os olhos de Elis. Ah, com
certeza ficaria de castigo pela vida inteira. Seria o mínimo por aquela
travessura. Elis tentava imaginar o que se passava pela cabeça de seu padrasto
mas sabia que não adivinharia algo de tão ruim que, com certeza, estava por
vir. Bom, essa era a conseqüência de ser Elis!
Nenhum comentário:
Postar um comentário