Cordélia chegou em casa já de noite,
depois da aula de ballet. Seu pai estaria de plantão até o dia seguinte e
provavelmente a moça que trabalhava na sua casa havia deixado comida no forno,
antes de ir embora. Escutou o som da TV vindo da sala e sabia que era Félix.
Fez seu prato e jantou, sozinha. À muito custo engoliu a comida pensando nas
palavras do irmão, ele sempre deixava claro que não estava satisfeito com ela
ou que ela poderia ser diferente. Cordélia tentava sorrir todos os dias, fazer
piadas com as aparentes tragédias mas no fundo se sentia rejeitada. Sua mão
tinha ido embora antes que ela completasse um ano, parece que simplesmente cansou
de brincar de família. Seu pai passava mais tempo no hospital do que em casa e
Félix... bem, parecia que ele não a queria por perto. Ninguém a aceitava,
ninguém a queria. Apenas Elis e Luiza. Sorriu tristemente lembrando-se das
amigas e ficou séria quando viu o irmão na parado na porta da cozinha lhe
encarando.
Cordélia jogou o restante da comida no
lixo, lavou seu prato e passou direto por Félix, subindo para seu quarto.
Félix viu o olhar triste da irmã que
já o ignorava há tempo. Desistiu de colocar a comida no prato e foi atrás de
Cordélia. Chegando ao seu quarto, escutou o barulho do chuveiro e a esperou
sair do banho. Cordélia saiu do seu banheiro enrolada no roupão roxo e quase
desmaiou quando viu Félix sentado na beirada de sua cama.
_ Que susto, Félix! _ colocava a mão
no peito. _ O que você quer?
_ Preciso falar com você. _ Félix viu
os olhos vermelhos da irmã. Com certeza estava chorando debaixo do chuveiro.
_ Eu não quero brigar. Me manda um
e-mail se for reclamar de alguma coisa.
_ Você ta me ignorando há quase dois
dias.
_ E não era pra você ta feliz? _
Cordélia cruzou os braços na frente do corpo. _ Eu não sou a irmã que você
quer, então não é melhor fingir que eu não existo? Não fica muito mais fácil
assim? Melhor que isso só se eu não tivesse nascido. Acho que ia ser mais fácil
pra todo mundo!
_ Pára de falar besteira. _ Félix se
levantou e Cordélia ficou de costas.
_ Não é besteira. _ Cordélia sussurrou
sem conseguir segurar as lágrimas. _ Você acha que eu não percebo o pouco tempo
que o papai passa em casa ou que a nossa mãe foi embora depois que eu nasci?
_ Você não tem nada a ver com nossa
mãe ter ido embora.
_ Ela não me quis... _ Cordélia
soluçou e Félix abraçou a irmã. _ Você também não me quer...
_ Por que você ta dizendo isso, Dedé?
_ era como Félix a chamava desde que ela nascera.
_ A... a fe-festa que eu fui com...
com a Luiza... _ Cordélia tremia no abraço do irmão que a embalava de um lado
para o outro.
_ Não é que eu não quisesse você lá
mas... caramba, você é minha irmãzinha. E quanto mais cresce, parece que
escorrega que nem sabonete. Eu quero te proteger mas as vezes você torna
impossível porque não pára quieta! Você nunca pediu permissão pra fazer nada
mas agora você é adulta e eu acho que não sirvo mais pra nada.
_ Não, Félix... Eu sou sua irmãzinha,
ainda. E você é meu irmão mais velho. Eu sempre vou precisar de você. _ desde
que a mãe deixou os dois, o pai trabalhava em dobro. Então Félix prometeu
cuidar e proteger a irmã. Eram apenas os dois. Cordélia sempre fora impulsiva
mas obedecia Félix, o respeitava como uma figura paterna. Félix sabia que o que
havia machucado Cordélia havia sido seu comentário lhe comparando à Luiza.
_ Eu não quero que você seja igual à
Luiza. _ beijou o topo da cabeça de Cordélia e riu. _ Sua amigas são muito
gatas pra eu querer como irmã!
_ Seu safado! _ Cordélia gargalhou
dando um tapa no braço de Félix que limpava as lágrimas do seu rosto. Então
ficou sério, olhando para baixo. _ Você lembra dela? Da nossa mãe?
_ Muito pouco. Mais por fotos que
ficaram e o papai não consegui jogar fora. Lembro mais da sensação, do cheiro
de canela que ela tinha ou dos seus dedos coçando minhas costas pra eu dormir.
_ Foi com ela que você aprendeu isso?
_ Félix tinha apenas dois anos quando a mãe partira mas desde sempre se sentiu
responsável por Cordélia. Sempre que a irmã precisava dormir, ele se sentava ao
seu lado e com os pequenos e gordinhos dedos, coçava as costas de Cordélia
ainda bebê. Fizera isso durante toda a infância e as vezes quando estavam
assistindo TV, ela se estirava ao seu lado no sofá e Félix pousava uma mãos das
suas escápulas para esfregar até ela cair num profundo sono. Mesmo que no dia
seguinte ela acordasse toda dolorida, porque ele largava a irmã por lá e subia
para dormir. _ Eu não lembro de nada.
_ Éramos bebês, Cordélia. _ ela se
afastou e sentou na beirada da cama sob os olhar atento do irmão. _ Ela ia
acabar indo embora de qualquer jeito. Ainda bem que ficou tempo o suficiente
pra me dar uma irmã.
Sorriram um para o outro e desceram
para assistir televisão. Cordélia se estirou de barriga para baixo no tapete e
Félix coçou suas costas. Seriam sempre um pelo outro, se cuidando e se
mantendo. Nada podia separá-los ou magoá-los a ponto de não ser consertado.
_ Obrigada... _ Cordélia murmurou já
de olhas fechados e sonolenta.
_ De nada.
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