Capítulo 07: Irmão é pra essas coisas!


          Cordélia chegou em casa já de noite, depois da aula de ballet. Seu pai estaria de plantão até o dia seguinte e provavelmente a moça que trabalhava na sua casa havia deixado comida no forno, antes de ir embora. Escutou o som da TV vindo da sala e sabia que era Félix. Fez seu prato e jantou, sozinha. À muito custo engoliu a comida pensando nas palavras do irmão, ele sempre deixava claro que não estava satisfeito com ela ou que ela poderia ser diferente. Cordélia tentava sorrir todos os dias, fazer piadas com as aparentes tragédias mas no fundo se sentia rejeitada. Sua mão tinha ido embora antes que ela completasse um ano, parece que simplesmente cansou de brincar de família. Seu pai passava mais tempo no hospital do que em casa e Félix... bem, parecia que ele não a queria por perto. Ninguém a aceitava, ninguém a queria. Apenas Elis e Luiza. Sorriu tristemente lembrando-se das amigas e ficou séria quando viu o irmão na parado na porta da cozinha lhe encarando.
          Cordélia jogou o restante da comida no lixo, lavou seu prato e passou direto por Félix, subindo para seu quarto.
          Félix viu o olhar triste da irmã que já o ignorava há tempo. Desistiu de colocar a comida no prato e foi atrás de Cordélia. Chegando ao seu quarto, escutou o barulho do chuveiro e a esperou sair do banho. Cordélia saiu do seu banheiro enrolada no roupão roxo e quase desmaiou quando viu Félix sentado na beirada de sua cama.
          _ Que susto, Félix! _ colocava a mão no peito. _ O que você quer?
          _ Preciso falar com você. _ Félix viu os olhos vermelhos da irmã. Com certeza estava chorando debaixo do chuveiro.
          _ Eu não quero brigar. Me manda um e-mail se for reclamar de alguma coisa.
          _ Você ta me ignorando há quase dois dias.
          _ E não era pra você ta feliz? _ Cordélia cruzou os braços na frente do corpo. _ Eu não sou a irmã que você quer, então não é melhor fingir que eu não existo? Não fica muito mais fácil assim? Melhor que isso só se eu não tivesse nascido. Acho que ia ser mais fácil pra todo mundo!
          _ Pára de falar besteira. _ Félix se levantou e Cordélia ficou de costas.
          _ Não é besteira. _ Cordélia sussurrou sem conseguir segurar as lágrimas. _ Você acha que eu não percebo o pouco tempo que o papai passa em casa ou que a nossa mãe foi embora depois que eu nasci?
          _ Você não tem nada a ver com nossa mãe ter ido embora.
          _ Ela não me quis... _ Cordélia soluçou e Félix abraçou a irmã. _ Você também não me quer...
          _ Por que você ta dizendo isso, Dedé? _ era como Félix a chamava desde que ela nascera.
          _ A... a fe-festa que eu fui com... com a Luiza... _ Cordélia tremia no abraço do irmão que a embalava de um lado para o outro.
          _ Não é que eu não quisesse você lá mas... caramba, você é minha irmãzinha. E quanto mais cresce, parece que escorrega que nem sabonete. Eu quero te proteger mas as vezes você torna impossível porque não pára quieta! Você nunca pediu permissão pra fazer nada mas agora você é adulta e eu acho que não sirvo mais pra nada.
          _ Não, Félix... Eu sou sua irmãzinha, ainda. E você é meu irmão mais velho. Eu sempre vou precisar de você. _ desde que a mãe deixou os dois, o pai trabalhava em dobro. Então Félix prometeu cuidar e proteger a irmã. Eram apenas os dois. Cordélia sempre fora impulsiva mas obedecia Félix, o respeitava como uma figura paterna. Félix sabia que o que havia machucado Cordélia havia sido seu comentário lhe comparando à Luiza.
          _ Eu não quero que você seja igual à Luiza. _ beijou o topo da cabeça de Cordélia e riu. _ Sua amigas são muito gatas pra eu querer como irmã!
          _ Seu safado! _ Cordélia gargalhou dando um tapa no braço de Félix que limpava as lágrimas do seu rosto. Então ficou sério, olhando para baixo. _ Você lembra dela? Da nossa mãe?
          _ Muito pouco. Mais por fotos que ficaram e o papai não consegui jogar fora. Lembro mais da sensação, do cheiro de canela que ela tinha ou dos seus dedos coçando minhas costas pra eu dormir.
          _ Foi com ela que você aprendeu isso? _ Félix tinha apenas dois anos quando a mãe partira mas desde sempre se sentiu responsável por Cordélia. Sempre que a irmã precisava dormir, ele se sentava ao seu lado e com os pequenos e gordinhos dedos, coçava as costas de Cordélia ainda bebê. Fizera isso durante toda a infância e as vezes quando estavam assistindo TV, ela se estirava ao seu lado no sofá e Félix pousava uma mãos das suas escápulas para esfregar até ela cair num profundo sono. Mesmo que no dia seguinte ela acordasse toda dolorida, porque ele largava a irmã por lá e subia para dormir. _ Eu não lembro de nada.
          _ Éramos bebês, Cordélia. _ ela se afastou e sentou na beirada da cama sob os olhar atento do irmão. _ Ela ia acabar indo embora de qualquer jeito. Ainda bem que ficou tempo o suficiente pra me dar uma irmã.
          Sorriram um para o outro e desceram para assistir televisão. Cordélia se estirou de barriga para baixo no tapete e Félix coçou suas costas. Seriam sempre um pelo outro, se cuidando e se mantendo. Nada podia separá-los ou magoá-los a ponto de não ser consertado.
          _ Obrigada... _ Cordélia murmurou já de olhas fechados e sonolenta.

          _ De nada. 

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