Capítulo 3: O prazer é todo nosso!


Eram sete horas de uma manhã chuvosa; o pátio da escola estava abarrotado de alunos que costumavam esperar o sinal tocar ainda do lado de fora. Mas com aquele tempo, só poderiam se esconder em algum lugar coberto. Cordélia, Elis e Luiza estavam sentadas nos degraus da escada que levavam para as salas de aula. Luiza com um livro e um caderno abertos, fazendo anotações; Cordélia não ouvia nada com os fones de ouvido, a música no último volume. Elis quase dormia sentada:
 _ Droga de férias que não chegam! _ resmungava entre um bocejo e outro. _ Droga de tempo… 
_ Você reclama muito. _ respondia Cordélia de olhos fechados; embora parecesse que não estava escutando Elis devido ao som alto. _ Nem parece que saiu ontem de uma delegacia. 
_ E que droga de castigo! _ Elis levantava, espalhando as folhas de estudos de Luiza no ar. _ Você acredita que o Fernando me deixou um mês sem sair e usar o telefone? Até meu celular ele confiscou! De casa pras aulas e das aulas pra casa!_ Elis reclamava gesticulando (e dramatizando) _ E depois ainda acham que eu não tenho motivo pra fugir! Que caos! Que  tragédia! Não acontece nade de interessant… _ Elis virou-se bruscamente pelo corrimão, nesse momento virando o corredor e trombando, surgiu um par de olhos castanhos. Foi tudo o que viu através de livros e folhas que voavam e caiam no chão.
_ Opa! 
As três ficaram boquiabertas, sem conseguir emitir um som, tamanha a beleza do garoto, que as olhava sorrindo. Ah, que sorriso… Cordélia, que cantava, ficou muda; Luiza que antes recolhia suas folhas espalhadas no chão em posição de gatinho, olhava para cima sem se mexer; Elis, de frente para o rapaz, embora tentasse, nada conseguia falar. O silêncio foi interrompido por Félix, irmão de Cordélia e mais três rapazes que riam e falavam alto, logo atrás daquele deus grego:
_ Meninas! Tudo bem? Cordélia, não vi você saindo de casa, hoje. _ Cordélia não desviava os olhos do novo rapaz e Félix teve que estalar os dedos perto de seu rosto: _ Ei! Tá me ouvindo? 
_ Oi… Eu? Quê? _ Cordélia voltava a si, olhando para o irmão mas sem desviar a atenção  daquela sorriso tão branco que cegava. _ Eu não… não… não quis pegar  carona com o papai. Não queria ouvir sermão. 
_ E depois do que você fez ontem, você esperava o que? Aliás, o que passou pela cabeça de vocês três, hein? Arthur, você acredita que essas três ontem resolveram fugir de casa?  Pegaram o carro e fugiram! _ “então Arthur era o nome dele?!”, as três pensavam, olhando-o de cima abaixo. Como num estalo, Félix virou-se para as meninas: _ Ah, Arthur! Essa é Cordélia, a minha irmã. E essas outras duas malucas são as amigas dela, Elis e Luiza. Meninas, esse é o Arthur, ele veio transferido e tá no time do colégio. _ “Ai, ele é atleta!”, mais uma vez  as três suspiravam em pensamento enquanto se concentravam para não respirar. Sim, a respiração sairia como um alto suspiro. 
_ Prazer. _ E quando parecia que não dava para melhorar, ele abria a boca e sua voz era tão linda quanto os olhos, a boca, o cabelo preto e liso caindo nos olhos. _Posso ajudar você? _ ele se agachava ao lado de Luiza para ajudá-la a recolher suas coisas espalhadas no chão que se misturaram às anotações dele. 
_ Ah, não precisa. Já peguei tudo, obrigada. _ Luiza pegava tudo de uma forma muito desajeitada e se levantava. O sinal tocou. “Graças a Deus!”, pensou Luiza enquanto se levantava e se virava para subir as escadas. _ A aula vai começar. Tchau. 
Elis e Cordélia seguiram Luiza, olhando para trás e acenando para Arthur feito duas bobas. Sentaram nas penúltimas carteiras; Cordélia e Elis em volta de Luiza. Não demorou muito para começar o “ti-ti-ti”: 
_ Um gato… Ai, gente! Espero que meu irmão chame o Arthur pra frequentar lá em casa! 
_ Também espero! Adoro frequentar sua casa! _ Elis se animava dando a entender que queria rever Arthur, mas a verdade é que nutria um sentimento platônico pelo irmão da sua melhor amiga. _ Não perco nunca mais um só jogo do time! Que que cê achou dele, Lu? 
_ Não achei nada. É só mais um atleta. 
_ Caraca! Por isso que tá sozinha! Como você vai encontrar o homem da sua vida com essa preguiça toda de procurar? _ Elis puxava as anotações de Luiza, só assim conseguia a atenção da amiga. 
_ Você vem procurando com muita disposição, e até exagero, e não tá numa situação muito diferente da minha. _ rebateu Luiza, tranquilamente enquanto abria uma pasta; Cordélia colocou o livro no rosto e começou a rir descontroladamente, a professora de inglês parou ao seu lado, séria e indagou: 
_ Algum problema, Cordélia? 

_ Desculpe, professora. Eu tenho miopia… 

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