Eram sete horas
de uma manhã chuvosa; o pátio da escola estava abarrotado de alunos que costumavam
esperar o sinal tocar ainda do lado de fora. Mas com aquele tempo, só poderiam se
esconder em algum lugar coberto. Cordélia, Elis e Luiza estavam sentadas nos
degraus da escada que levavam para as salas de aula. Luiza com um livro e um
caderno abertos, fazendo anotações; Cordélia não ouvia nada com os fones de
ouvido, a música no último volume. Elis quase dormia sentada:
_ Droga de férias que não chegam! _ resmungava
entre um bocejo e outro. _ Droga de tempo…
_ Você reclama
muito. _ respondia Cordélia de olhos fechados; embora parecesse que não estava
escutando Elis devido ao som alto. _ Nem parece que saiu ontem de uma
delegacia.
_ E que droga
de castigo! _ Elis levantava, espalhando as folhas de estudos de Luiza no ar. _
Você acredita que o Fernando me deixou um mês sem sair e usar o telefone? Até
meu celular ele confiscou! De casa pras aulas e das aulas pra casa!_ Elis
reclamava gesticulando (e dramatizando) _ E depois ainda acham que eu não tenho
motivo pra fugir! Que caos! Que tragédia!
Não acontece nade de interessant… _ Elis virou-se bruscamente pelo corrimão,
nesse momento virando o corredor e trombando, surgiu um par de olhos castanhos.
Foi tudo o que viu através de livros e folhas que voavam e caiam no chão.
_ Opa!
As três ficaram
boquiabertas, sem conseguir emitir um som, tamanha a beleza do garoto, que as
olhava sorrindo. Ah, que sorriso… Cordélia, que cantava, ficou muda; Luiza que
antes recolhia suas folhas espalhadas no chão em posição de gatinho, olhava
para cima sem se mexer; Elis, de frente para o rapaz, embora tentasse, nada
conseguia falar. O silêncio foi interrompido por Félix, irmão de Cordélia e
mais três rapazes que riam e falavam alto, logo atrás daquele deus grego:
_ Meninas! Tudo
bem? Cordélia, não vi você saindo de casa, hoje. _ Cordélia não desviava os
olhos do novo rapaz e Félix teve que estalar os dedos perto de seu rosto: _ Ei!
Tá me ouvindo?
_ Oi… Eu? Quê?
_ Cordélia voltava a si, olhando para o irmão mas sem desviar a atenção daquela sorriso tão branco que cegava. _ Eu
não… não… não quis pegar carona com o
papai. Não queria ouvir sermão.
_ E depois do
que você fez ontem, você esperava o que? Aliás, o que passou pela cabeça de vocês
três, hein? Arthur, você acredita que essas três ontem resolveram fugir de
casa? Pegaram o carro e fugiram! _
“então Arthur era o nome dele?!”, as três pensavam, olhando-o de cima abaixo.
Como num estalo, Félix virou-se para as meninas: _ Ah, Arthur! Essa é Cordélia,
a minha irmã. E essas outras duas malucas são as amigas dela, Elis e Luiza.
Meninas, esse é o Arthur, ele veio transferido e tá no time do colégio. _ “Ai,
ele é atleta!”, mais uma vez as três
suspiravam em pensamento enquanto se concentravam para não respirar. Sim, a respiração
sairia como um alto suspiro.
_ Prazer. _ E
quando parecia que não dava para melhorar, ele abria a boca e sua voz era tão linda
quanto os olhos, a boca, o cabelo preto e liso caindo nos olhos. _Posso ajudar
você? _ ele se agachava ao lado de Luiza para ajudá-la a recolher suas coisas
espalhadas no chão que se misturaram às anotações dele.
_ Ah, não
precisa. Já peguei tudo, obrigada. _ Luiza pegava tudo de uma forma muito desajeitada
e se levantava. O sinal tocou. “Graças a Deus!”, pensou Luiza enquanto se levantava
e se virava para subir as escadas. _ A aula vai começar. Tchau.
Elis e Cordélia
seguiram Luiza, olhando para trás e acenando para Arthur feito duas bobas. Sentaram
nas penúltimas carteiras; Cordélia e Elis em volta de Luiza. Não demorou muito para
começar o “ti-ti-ti”:
_ Um gato… Ai,
gente! Espero que meu irmão chame o Arthur pra frequentar lá em casa!
_ Também
espero! Adoro frequentar sua casa! _ Elis se animava dando a entender que
queria rever Arthur, mas a verdade é que nutria um sentimento platônico pelo
irmão da sua melhor amiga. _ Não perco nunca mais um só jogo do time! Que que
cê achou dele, Lu?
_ Não achei
nada. É só mais um atleta.
_ Caraca! Por
isso que tá sozinha! Como você vai encontrar o homem da sua vida com essa preguiça
toda de procurar? _ Elis puxava as anotações de Luiza, só assim conseguia a
atenção da amiga.
_ Você vem
procurando com muita disposição, e até exagero, e não tá numa situação muito diferente
da minha. _ rebateu Luiza, tranquilamente enquanto abria uma pasta; Cordélia colocou
o livro no rosto e começou a rir descontroladamente, a professora de inglês
parou ao seu lado, séria e indagou:
_ Algum
problema, Cordélia?
_ Desculpe,
professora. Eu tenho miopia…
Nenhum comentário:
Postar um comentário