Prólogo


                _ Eu vou embora! _ a mochila estava aberta e amontoada de roupas; do outra lado, uma necessérie com a escova de dentes e toda sua gaveta de maquiagem. Os sapatos estavam espalhados pelo chão numa fileira de “esse eu levo, esse fica e esse eu não sei”. 
_ E pra onde você vai? Você nem sabe arrumar uma mala! Você nem tem noção do que  precisa ou não… E pára de ser dramática, Elis! Você ficou de castigo, não é o fim do mundo! 
                Elis sentou no chão entre os sapatos, olhou para Luiza respirando fundo e soltou num  fôlego só: _ É porque não é com você! 
                _ Dá pra escutar os gritos da Elis lá da padaria… _ Cordélia entrava no quarto quando  tropeçou num dos sapatos e olhou em volta: _ O que que é isso? 
                _ A Elis vai se separar dos pais. 
                _ Vou mesmo! Vou pedir minha emancipação! 
                _ E vai viver de quê, ô bonitona? _ Cordélia começava a experimentar alguns dos sapatos  espalhados. 
                _ Não sei, eu me viro. Eu sou artista, sou muito criativa. Posso fazer esculturas de latas de  ervilhas. Ou trabalhar como estátua viva… Ou cantar e fazer poesias! Vocês vivem dizendo que eu escrevo bem. 
                Luiza começou a desfazer as malas de Elis que puxava todas as roupas de suas mãos:
_ Pára com isso! Você não vai a lugar nenhum!
                _ Vou sim! 
                _ Então vamos com você. _ Cordélia dizia, tirando os sapatos e colocando dentro da mochila, com toda naturalidade do mundo. 
_ Vamos?!_ Luiza abriu a boca. 
_ Vamos, ué. A gente não pode deixar ela ir embora sozinha, né? E se ela for, como fica? Só nós duas? Então, Elis… como vai ser? 
_ Ai, que maravilha! A gente vai se divertir tanto! _ agora, Elis falava animada como se fossem tirar férias. _ Nós pegamos o carro e vamos até o sul, lá pegamos um ônibus e atravessamos a fronteira! 
            _ Você quer entrar num país clandestinamente? Elis, a gente tem quinze anos e não pode 
dirigir. Como você pensa em pegar esse carro? _ Cordélia continuava a experimentar os 
sapatos enquanto Luiza praticamente gritava sem acreditar em toda aquela situação. 
Elis abriu o criado mudo e pegou um objeto pequeno, balançou à altura dos olhos: as chaves 
do carro! Cordélia sorriu, Luiza jogou a cabeça para trás e caiu de costas na cama em cima da 

montanha de roupas. 

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